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Crônica: Urubuzé ensina vereador a voar!

Urubuzé acordou naquela manhã, escovou o bico, beijou a dona urubua e os dois filhotes e saiu pela mata articulando uma forma de conseguir o pão de cada dia para ele e sua família. Ao sobrevoar um povoado, Urubuzé viu um vereador pedindo voto.

O sabido urubu desceu e se empoleirou na cumeeira da casa e ficou ouvindo a prosa do vereador com os eleitores. Se eu for eleito todos vocês aqui desta casa vão ter um emprego que eu vou dar. Garantia o edil. É verdade isso? Perguntou um morador. Verdade. Pode confiar. Vote em mim e você vai ver.

Vereador e a segurança? O que o senhor vai fazer para melhorar a segurança em nosso povoado? Perguntou outro morador. O vereador respondeu na hora. Vou botar um batalhão de Polícia Militar aqui neste povoado. Não vai ficar um ladrão aqui.

Nem briga de marido e mulher vai ter mais. Vocês vão viver tranquilos. Como é o negócio? O senhor vai botar um batalhão de polícia aqui? Exatamente. A bandidagem vai ter que mudar de endereço. E a água e luz vereador? O preço está caro. O que senhor vai fazer para diminuir o preço?

O que? Diminuir o preço. Colé mané diminuir preço rapaz. Cê não me conhece não? Eu já apresentei um projeto na Câmara e no ano que vem ninguém vai pagar água e nem luz. Quem tem que pagar é o governo. O governo que se vire. Isso é problema dele. No ano que vem vocês tão livre de conta de água e de luz.

É só votar em mim que vocês vão ver. Urubuzé estava pasmo na cumeeira da casa. “Nunca vi um cabra menti deste jeito. E o pior que ainda tem gente que acredita. Neste mundo besta fica pouco, mas não acaba. Arre égua” , pensou o Urubu.

O vereador seguiu de casa em casa, pedindo voto e fazendo promessas mirabolantes. Até que, numa determinada casa, um eleitor revoltado com as mentiras do edil, jogou um balde de água fervendo no parlamentar. O representando do legislativo conseguiu dar um pulo e escapou por pouco.

Urubuzé lamentou o fato: “Peste nem para a água fervendo ter matado este cabra mentiroso. Era a primeira vez que eu ia comer um vereador assado, tostadinho, o bicho deve ter a carne macia de tanto comer dinheiro público.” Retado da vida o vereador protestava.

Isso é o reconhecimento que a gente ganha por dedicar nossa vida ao povo. É uma ingratidão muito grande. Urubuzé aproveitou a deixa e fingiu solidariedade ao vereador. Realmente amigo. Isso é um absurdo.

Um homem da sua qualidade e da sua dignidade que tanto se dedica aos mais necessitados, sofrer uma ingratidão desta é o fim do mundo. E olha que você é o melhor vereador da cidade. Eu acompanho seus pronunciamentos pelo rádio e sei que você trabalha muito. Você merece o reconhecimento do povo e vai ser reeleito.

O vereador entusiasmado com os elogios nem reparou que estava falando com um urubu. Obrigado amigo. Ainda bem que tem pessoas como você que reconhecem o nosso trabalho. Você não deveria ser candidato a vereador. Você é tão bom que deveria ser candidato a prefeito.

É mesmo? Você acha? Claro que eu acho. E já tenho a estratégia certa para você se eleger prefeito da cidade sem fazer muita força. E qual é a estratégia? Me dique? É o seguinte: o primeiro passo é aprender a voar. Aprender o que? Aprender a voar. Oxente e como é que eu vou aprender a voar. Gente não voa.

Que é isso vereador, não diga uma bobagem dessas. Já está provado pela física quântica que qualquer um pode voar. É só querer. Eu mesmo posso lhe ensinar. Já pensou você voando? Vai chegar na frente dos seus adversários em todos os lugares, vai convencer o povo com facilidade a votar em você.

Vai ser prefeito e vai pegar aqueles vereadores que não gostam de você e deixar os bichos a pão e água até eles virem pedir penico ajoelhado nos seus pés. É assim mesmo como você está dizendo? Claro. E se você quiser aprender é muito fácil. Eu mesmo lhe ensino. Lógico que quero aprender. O que devo fazer?

 Bom primeiro vamos para a BR 364. Eu vou fazer uma aula prática, você preste bastante atenção e depois é só você fazer o mesmo que eu fiz e voará com a maior facilidade. Lá foram os dois para a BR. O Urubu fez uma advertência. “Para aprender a voar tem que esperar vir uma carreta carregada de cimento ou então um ônibus.

Carro pequeno não é garantido não.” Urubuzé ficou no meio da pista. Uma carreta se aproximou. Quando o veículo estava bem próximo do urubu, ele, elegantemente, bateu asas e voou. Depois de alguns minutos, retornou a terra e pousou suavemente.

Agora é sua vez amigo vereador. Vista o paletó, fique no meio da pista e espere uma carreta se aproximar. Quando ela estiver bem perto você bate as asas, o paletó se abrirá igual asas de morcego e você voará pelo universo infinito. O vereador acreditou.

Ficou no meio da pista esperando uma carreta. O urubu esfregava as asas e pensava: “O bicho está gordinho que está danado. Dinheiro público engorda para danar. Daqui a pouco tô de bico dentro. Vai ser uma festa, vai ser a primeira vez que eu e minha família vamos ter na ceia um vereador.”

De repente uma carreta vem descendo a ladeira. O carreteiro espantou-se quando viu um homem de paletó batendo os braços como se fosse asas. “Que diabo é isso? ”. Pensou o motorista. Ao se aproximar um pouco mais, reconheceu o vereador e conseguiu desviar do parlamentar.

Desceu da carreta e veio ver o que estava acontecendo. Vereador o que o senhor está fazendo no meio da estrada batendo os braços desse jeito. Quase que eu lhe atropelo. Tô aprendendo a voar. Aprendendo o que? A voar. Voar? Você ficou doido rapaz.

Será que foi a política que lhe deixou maluco? É sério. Eu conversei com um urubu e ele disse que se eu ficasse na pista e esperasse uma carreta eu aprenderia a voar.

Como é o negócio? Você conversou com quem mesmo? Com um urubu? Com um urubu? Olha vereador eu sempre soube que papagaio fala, mas nunca vi dizer que urubu converse não.

Rapaz acho que vou lhe levar para uma clínica. Esta tal de lava jato está deixando os políticos doidos. O caminhoneiro botou o vereador dentro do carro e retornou para cidade para buscar ajudar médica.

Dentro do mato o Urubu não escondia a revolta. “Isso é um azar muito grande. Diabo deste caminhoneiro traíra. Por causa dele não vou experimentar o gosto da carne do parlamentar”. O bicho bateu asas e sumiu.

Fonte: Sabedoria Popular